24/06/2020 às 10h12min - Atualizada em 24/06/2020 às 10h12min

PALHAÇO BATATA MORRE PELO CORONAVÍRUS DE BOLSONARO

E VIRA MANCHETE NO THE GUARDIAN


Leandro Maduro Costa era conhecido como Palhaço Batata. Diziam que ele tinha nascido palhaço, vivido sempre como palhaço - e que esperava morrer como palhaço.
Em 7 de maio, ele parecia estar se recuperando, postando no Facebook, para agradecer as orações que as pessoas faziam diante de uma foto em que posava com a bandeira do Brasil e o seu chapéu-coco e nariz de palhaço vermelho.
Mas, 24 horas depois, sua mulher começou a se preocupar e levou-o às pressas para o hospital, coisa que ele evitava por medo de colocar em risco as crianças que entretinha. "Ele não queria ir. Mas percebi que algo estava estranho. Os lábios dele estavam roxos” - ela disse.

O Palhaço Batata foi enterrado no Rio, dia 11 de maio, cercado por um pequeno grupo de parentes e em um caixão fechado. Por causa do coronavírus, a família e os amigos não conseguiram realizar o seu desejo de ser enterrado como um palhaço.

"Ele sempre me dizia: 'Felipe, se eu morrer primeiro, me enterre como 'Batata'", disse Felipe Alves Guimarães, amigo e colega de banda, conhecido pelo público como ‘Pandeiro’.
"Seria a primeira vez que um palhaço seria enterrado vestido de palhaço", lembrou Guimarães.
O Pandeiro prometeu honrar os desejos do Batata. Mas quando o Covid-19 começou a avançar no Brasil, em março, destruiu esses planos, assim como destruiu mais de 50.000 vidas no país mais atingido do mundo, depois dos Estados Unidos.

O Palhaço Batata foi enterrado no Rio em 11 de maio, cercado por um pequeno grupo de parentes e em um caixão fechado.
"Por causa desse vírus, não conseguimos realizar seu desejo", disse Guimarães. “Isso realmente me chateou. Passei dois ou três dias trancado em casa em pedaços - porque não pude fazer uma despedida final ao meu amigo. Costumávamos falar ao telefone todos os dias. Mas não pude ir lá para me despedir e pedir a Deus que o recebesse de braços abertos.”

Com mais de 1 milhão de casos de Covid-19 registrados, o Brasil, a maior democracia da América Latina, está sendo consumido talvez por seu confronto político mais estúpido em décadas - e alguns apontam o dedo diretamente para o presidente Jair Bolsonaro pela escalada da calamidade.

As vítimas do Brasil incluem pessoas de todas as faixas políticas: políticos conservadores, funcionários públicos centristas, músicos de esquerda - e artistas, como Batata, que simplesmente tentavam encantar as pessoas, qualquer que fosse sua tendência.
Ana Catarine Carneiro, uma enfermeira, em campanha pela memória dos mortos do Brasil, diz que a politização do coronavírus ocultou seu custo humano.
"O que realmente importa não pode mais ser visto", disse ela. “As pessoas não são mais visíveis. O impacto da pandemia não pode mais ser visto - tudo o que permanece visível é a política.”

A partir de reportagem de Tom Phillips, para The Guardian.

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