28/11/2019 às 13h59min - Atualizada em 28/11/2019 às 13h59min

MUNDO REAGE À PRISÃO DOS AMBIENTALISTAS

MPF ACUSA OS GRILEIROS PELO FOGO


O pedido de socorro das famílias dos quatro brigadistas voluntários presos em Alter do Chão, no Pará, invadiu as redes sociais e foi ouvido no mundo. “Meu filho é um guardião da floresta”, afirmou a mãe de João Victor Romano, um dos presos. “Acreditamos na verdade e ela vai aparecer”. Convicta, Patrícia Romano reforça que o filho dela jamais cometeria um crime ambiental. 

O Ministério Público Federal de Santarém também segue a mesma linha das famílias dos brigadistas e afirma que “nenhum elemento apontava para a participação de brigadistas ou organizações da sociedade civil”. O MPF-PA já requisitou à Polícia Civil do Pará o inquérito que levou à prisão dos quatro brigadistas, nessa terça-feira, 26 de novembro.
Afinal quem mandou prender e qual é a acusação contra os voluntários? A investigação federal aponta grileiros como os possíveis responsáveis pelos incêndios, e não os voluntários. O inquérito da polícia estadual acusa os brigadistas de  atear fogo na floresta para depois combaterem, dar mais visibilidade e mais doações à causa. No entanto, as organizações envolvidas negam as irregularidades.
O pedido de revogação da prisão preventiva foi negado pelo juiz da 1ª Vara Criminal de Santarém, Alexandre Rizzi, na audiência de custódia, nessa quarta-feira 27. A defesa dos quatro brigadistas afirmou que vai pedir habeas corpus em instâncias superiores.
Patrícia Kalil é jornalistas e mora em Alter do Chão. Em uma reportagem especial para a Envolverde, ela faz um importante relato sobre como é o trabalho que desenvolvem em defesa da floresta e da população da região.  
“Trabalho na área ambiental, conheço pessoalmente tanto os brigadistas que foram presos, como o Projeto Saúde e Alegria e seus funcionários. Quatro amigos meus foram presos, quatro pessoas da minha convivência na vila, quatro pessoas que vi ao longo desses anos envolvidos em uma lista de projetos e ações para cuidar e promover Alter. Tenho imagens de Daniel e João catando lixos nas praias na manhã de sábado, de Gustavo e Marcelo apoiando a promoção de festivais de música na vila, de todos eles participando de ações educativas para crianças e jovens ribeirinhos. Voluntariamente."
Patrícia mostra toda a indignação ao desrespeito à Constituição com a prisão dos amigos. “O fato é: Daniel Gutierrez, 36 anos, João Romano, 27 anos, Marcelo Cwerner, 36 anos e Gustavo Fernandes, 35 anos, estão presos. Há dois dias. Hoje começa o terceiro dia. Por isso é cada vez mais urgente falar do devido processo legal que tem sido atropelado com uma grosseria escandalosa no país, em uma perseguição contra ambientalistas e ongueiros. De repente, da noite para o dia, os heróis da vila estão sendo tachados de criminosos, caluniados (art 138 do Código Penal) e difamados (art 139) em memes nas redes sociais locais como se fossem os cabeça de uma quadrilha de desmiolados incendiários. Sob os olhos de autoridades”. A jornalista faz questão de reforçar o perfil dos acusados. “São quatro paulistas de famílias de classe média e classe média alta, formados em economia, jornalismo, audiovisual e turismo. Homens, brancos e héteros presos e difamados”. E segue na defesa dos amigos.
“São considerados suspeitos porque, entre todas as outras coisas que fazem, os jovens montaram uma Brigada de Incêndio para apoiar voluntariamente o Corpo de Bombeiros. Atuavam em parceria com os órgãos de segurança pública, com a prefeitura, com o governo. Eles são os que mais falavam e defendiam o trabalho sério de segurança pública em Alter.
Patrícia ressalta a importância do trabalho dos brigadistas ao lembrar as condições precárias dos órgãos públicos para combater os incêndios na floresta. “Chamem os bombeiros, que são treinados, tem preparo emocional e físico para o perigo e recebem para isso. É o que eu penso. O problema é que falta bombeiros no Pará. O 4º GBM tem 50 funcionários para combater o fogo numa área de 313.957.940 km2 de 11 municípios vizinhos.
Este ano, a Brigada de Alter abriu uma vaquinha virtual para arrecadar doações com o objetivo de comprar equipamentos de segurança para os voluntários. Quando o fogo atingiu Alter em setembro, muitas pessoas de fora ficaram sabendo que a vila tinha uma Brigada e estavam com campanha de crowdfunding no ar. Conseguiram doações por causa da repercussão do grande incêndio em Alter e isso, em tese, foi o que despertou suspeitas.”  
A WWF- Brasil, uma das mais importantes ONGs do mundo, também reagiu às acusações infundadas e arbitrariedades contra os seus parceiros de Alter do Chão. Veja a nota. 
“O WWF-Brasil vem a público manifestar sua indignação com a ação da Polícia Civil em Alter do Chão, no dia 26 de novembro de 2019 (terça-feira), quando foram feitas acusações infundadas contra organizações que apoiam o combate aos incêndios na região este ano. E com a manutenção da prisão preventiva de quatro brigadistas, que não foi relaxada na audiência de custódia que aconteceu na manhã de hoje, 27 de novembro (quarta-feira).
A falta de clareza sobre as investigações, a falta de fundamento das alegações usadas e, por consequência, as dúvidas sobre o real embasamento jurídico dos procedimentos adotados pelas autoridades contra os acusados, incluindo a entrada e coleta de documentação nas sedes das organizações Projeto Saúde e Alegria e Instituto Aquífero Alter do Chão – onde funcionava a Brigada de Alter do Chão –, são extremamente preocupantes do ponto de vista da democracia e configuram claramente medidas abusivas. O Projeto Saúde e Alegria, juntamente com várias organizações da sociedade civil, denunciou os grileiros e os loteamentos que ameaçavam as áreas de proteção ambiental de Alter do Chão. Os integrantes da Brigada fizeram denúncias, levando informações para os investigadores, incluindo imagens de queimadas.
A corrupção é e sempre foi uma das principais causas da destruição da Amazônia, das queimadas – grilagem para tomar terras, violência contra comunidades locais e povos indígenas, muitas atividades ilegais, roubo de madeira. O que se espera das diversas instâncias do governo é coragem de resolver o problema das queimadas e da especulação imobiliária na região de Alter do Chão.
 O WWF-Brasil repudia os ataques a seus parceiros e as mentiras envolvendo o seu nome, como a série de ataques em redes digitais com base em mentiras, como a compra de fotos vinculada a uma doação do ator Leonardo DiCaprio.
Como o WWF-Brasil já informou em nota no dia 26 de novembro, não houve compra de imagens da Brigada Alter do Chão. O fornecimento de fotos por qualquer parceiro da organização é inerente à comprovação das ações realizadas, essencial à prestação de contas dos recursos recebidos e sua destinação no âmbito dos Contratos de Parceria Técnico.




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