22/01/2022 às 09h52min - Atualizada em 22/01/2022 às 09h52min

NO CHILE, ​BORIC CUMPRE A PROMESSA!

UM GABINETE DE ESQUERDA E DE MULHERES

 

O presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, divulgou nesta sexta-feira, 21, os ministros que formarão seu governo a partir do dia 11 de março.
A média de idade do novo ministério é de 49 anos, provando que, com Boric (que tem 35), as mudanças serão significativas. O gabinete terá maioria feminina, com 14 mulheres e 10 homens, e maior representatividade das diferentes regiões do país: nove dos selecionados pelo presidente eleito são de áreas fora da zona metropolitana da capital Santiago.
 
Com os 24 nomes anunciados, prevaleceu o perfil moderado esperado, com muitos escolhidos vinculados ao Partido Socialista, que integrou a tradicional coalizão de centro-esquerda Concertação, e à Apruebo Dignidad, aliança de Boric.
 
O ministro da Fazenda será Mario Marcel, ex-membro do Partido Socialista, que até esta quinta, 20, era o responsável pelo Banco Central. É um engenheiro formado na Universidade do Chile e pós-graduado pela Universidade Cambridge, no Reino Unido. Curiosamente, não pôde participar da cerimônia no jardim do Museu Nacional de História Natural, em Santiago - está  em isolamento por ter feito contato com uma pessoa com Covid.
Ele é considerado moderado e já participou de diversos governos depois do fim da ditadura militar no país e terá a missão de acalmar os mercados, que se inflamaram no dia seguinte à vitória de Boric. Deve ser na base do "Calma gente, habrá para todos..."
 
Para o economista Rafael Pizarro, um dos trunfos do futuro ministro é "ser da esfera pública, alguém que conhece como funciona a administração". "Não é um economista que levará a mentalidade do mundo corporativo, do mercado, para dentro do governo", diz. "Além disso, é uma pessoa que já defendeu publicamente uma pensão básica universal, um aspecto que está no coração da reforma previdenciária."
 
Uma das estrelas da campanha, a médica Izkia Siches, estrategista da reta final da disputa, será a primeira mulher a comandar o Ministério do Interior. Outros colaboradores próximos a Boric e companheiros nos protestos estudantis de 2011 também terão papel de destaque. Giorgio Jackson será o secretário-geral da Presidência e Camila Vallejo, a porta-voz. Ela pertence ao Partido Comunista e vem articulando a relação entre Boric e a legenda, que cobra do eleito uma postura mais radical (Avante, camarada!).
Nos últimos dias, setores vinculados ao PC e à esquerda de Boric realizaram manifestações para pressioná-lo, pedindo a liberação imediata de pessoas detidas durante as manifestações de 2019 e em protestos de representantes do povo mapuche que terminaram em violência.
Questionado sobre um possível incômodo do Partido Comunista por ter ficado com apenas três ministérios, o presidente da sigla, Guillermo Teillier, colocou panos quentes e afirmou que o propósito da legenda "continua sendo o de cumprir o programa de governo elaborado na campanha e o de acompanhar e apoiar todas as medidas que levem a esse objetivo".

Vallejo foi na mesma direção, ao dizer que o gabinete é "a soma das várias vontades que existem de fortalecer as transformações no Chile".
"Não é um problema haver representantes de todos os grupos que nos apoiam – ao contrário. Estamos orgulhosos de ter uma maioria de mulheres no gabinete", afirmou ela, que levou a filha para a cerimônia.
 
Em seu discurso, Boric se disse orgulhoso de ter um gabinete formado por muitas mulheres, mas fez a ressalva de que a ex-presidente Michelle Bachelet já havia promovido uma composição paritária. Ele também afirmou que os ministros terão três tarefas principais: a primeira é seguir com a luta contra a "difícil situação causada pela pandemia" e com "a exitosa estratégia de vacinação, cuidando também do emprego e da saúde mental". "Temos de reconstruir a economia sem repetir as desigualdades de hoje."
 
A segunda, acrescentou, é trabalhar pela aprovação das grandes reformas, "a previdenciária e a administrativa, para que possamos melhorar a vida da população do Sul e acabar com a violência histórica contra a nação mapuche". Por fim, afirmou que o terceiro compromisso é "cuidar do processo constituinte e garantir que a Assembleia realize o trabalho com todas as condições e que o plebiscito seja vitorioso".
 
Outro destaque entre os ministros escolhidos é a ex-deputada Maya Fernández Allende, neta do presidente socialista Salvador Allende, derrubado no golpe de Estado de 1973. Outros socialistas com cargos no ministério são o economista e ex-senador Carlos Montes, em Habitação e Urbanismo, e Antonia Urrejola, que trabalhou na Corte Interamericana de Direitos Humanos e que atuará como chanceler.
 
A escolha de um perfil com visão crítica às ditaduras de Venezuela e Nicarágua para a área de relações internacionais sinaliza que Boric não deve ser condescendente com esses dois regimes. Ele afasta, assim, os ataques que recebeu durante a campanha, que apontavam a aliança com os comunistas como um ponto de contato com os governos autoritários de Nicolás Maduro e Daniel Ortega. Urrejola, nascida no Reino Unido, filha de chilenos que se exilaram durante a ditadura militar, trabalhou com Bachelet, hoje alta comissária da ONU para direitos humanos, em relatórios que denunciaram abusos nesses países.
 
Outro nome ligado à ex-presidente, o de Jeanette Vega, subsecretária de Saúde durante a gestão da política de centro-esquerda, também fará parte do governo de Boric, no cargo de ministra do Desenvolvimento Social. Já a deputada Marcela Hernando comandará a pasta de Mineração, o liberal Juan Carlos García será o titular de Obras Públicas, e o Esporte ficará nas mãos de Alexandra Benado, ex-jogadora da seleção de futebol.
Para o analista José Francisco Lagos, Boric cumpriu o desafio de formar um governo com membros do Apruebo Dignidad e do Partido Socialista, que havia ficado de fora da aliança inicial. "Ele montou um gabinete jovem, mas ancorado na tradição, na escola da Concertação. Marcel como ministro da Fazenda dará tranquilidade em temas como a autonomia do Banco Central, algo que sempre defendeu."
A primeira reunião do novo gabinete ocorrerá ainda antes da posse, no próximo dia 28. Talvez seja o caso de lembrar a campanha de 1964 de Allende e gritar: “Viva Chile, mierda!”
 
Leia também na Folha.
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