31/08/2021 às 08h33min - Atualizada em 31/08/2021 às 08h33min

VOTARAM EM BOLSONARO, PARA EVITAR O PT.

“AGORA HÁ ARREPENDIMENTO E DECEPÇÃO”, DIZ PERSIO ARIDA.


Nada como um real depois de um dólar. Ou será o contrário? Não importa. O que é absolutamente fantástico é ver Persio Arida, um dos bambambans do Plano Real, criticando a pauta do atual des-governo:
— Nosso Estado foi destruído e mal tratado, olha o que aconteceu com o Ibama, o que está acontecendo com a Ciência e Tecnologia.” Alerta para o risco de se deixar a inflação aumentar e chama a atenção para o avanço da pobreza: “Paulo Guedes devia andar na rua e não precisa ser em bairros pobres”.

A grande preocupação de Persio Arida, no momento, é com a defesa da democracia. Ele assinou um manifesto de economistas e empresários contra o governo, mas deve-se destacar que suas críticas a Bolsonaro e Paulo Guedes começaram antes das eleições.

“Muitos, para evitar um suposto mal maior, ou seja, a volta do PT, votaram em Bolsonaro”, disse ele, deixando uma dúvida sobre em quem ele votou: Alckmin? Álvaro Dias? Henrique Meirelles? João Goulart Filho? Foram 12 candidatos, Lula poderia ter sido um deles, mas foi cirurgicamente afastado, para garantir o sucesso de Bolsonaro.
Agora, quando há um movimento de rejeição às ameaças de golpe, de ruptura da ordem democrática, de rejeição a este processo de intimidação e erosão das instituições democráticas, Arida acha que entre os que votaram em Bolsonaro, na elite empresarial e financeira brasileira, há arrependimento e decepção – o que é uma grande verdade, mas não há nada pior do que ver o desengano da população mais pobre, arrastada para a tragédia que tomou conta do país.

 Sobre a frustrada agenda liberal, Arida diz que sempre alertou que era um engodo:
— Havia quem acreditasse que Bolsonaro encontrou Paulo Guedes na estrada de Damasco e se converteu. Foi um engano extraordinário. Bolsonaro votou contra o Plano Real, defendeu a tortura, disse que Fernando Henrique tinha que ser fuzilado porque privatizou a Vale, por que de repente acreditaram que ele defenderia o liberalismo? Paulo Guedes tem uma parte nisso. Ele criou uma narrativa e acreditou nela, a de que todos os problemas anteriores derivavam de ele não estar no governo. Foram dois erros: as pessoas não se perguntaram quem era Bolsonaro, nem quem era Paulo Guedes. Quiseram acreditar numa miragem. Uma miragem perigosa.

Na entrevista, ele critica também a surpresa demonstrada com o volume dos precatórios:
— A ideia que se tem é de que o Orçamento brasileiro foi atingido por um meteoro. Que meteoro? Houve uma falha na condução do processo. Outra falha é no teto de gastos. Ele deveria levar a uma redução das despesas obrigatórias. E não houve esse esforço, apenas o congelamento de salário do funcionalismo que vai gerar uma pressão enorme de recomposição. Outro exemplo de má condução é a crise hídrica. Está tendo aquecimento global. O erro foi interpretar os vários períodos de seca como temporários. Os problemas não vieram do nada. É falta de planejamento.

Persio acha que o governo também erra drasticamente na questão ambiental:
— Estamos traindo o futuro de duas formas. Uma é que temos que fazer parte do esforço do mundo para conter o aquecimento global. Outra é do ponto de vista econômico. O que a gente poderia atrair de capitais hoje e não está atraindo é uma barbaridade. Estamos pagando um preço alto pela agenda errada na área ambiental.

Ele diz que esse capital estrangeiro, que o governo afugenta com seu erro ambiental, faz falta ao desenvolvimento do país:
— Estamos com crescimento baixo, com aumento da pobreza e 14 milhões de desempregados. Paulo Guedes deveria andar na rua. Andar e olhar. Não estou falando de bairros pobres, mas de bairros abastados. Você vê a pobreza aumentar. Tem um potencial de crescimento que o Brasil está perdendo por causa de uma agenda retrógrada, na contramão do mundo.

Persio alerta que “a inflação tem que ser combatida logo”, até porque há risco de estagflação no ano que vem. Um dos efeitos será o aumento em 2022 das despesas públicas indexadas. Para Persio, a melhora dos indicadores fiscais é ilusória:
— É o velho imposto inflacionário atuando em favor das contas públicas. Um truque que funciona quando a inflação está crescendo. Isso tem um custo.

O que mais o preocupa neste momento, contudo, é o risco que a democracia brasileira corre no governo Bolsonaro:
— Nós estamos em um processo com uma tentativa de morte da democracia por erosão por dentro. É contra isso que a sociedade brasileira está reagindo, ela já viu isso acontecer.
Persio faz um paralelo entre a democracia e uma planta que temos que regar e proteger do vento forte. “É nosso bem maior.”

Pois é, Persio. Só faltou acrescentar que os seus tucanos preferiram ficar neutros na disputa pelo segundo turno de 2018. Como diz o ditado, “breve é a loucura, longo o arrependimento”...


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