14/06/2021 às 09h01min - Atualizada em 14/06/2021 às 09h01min

​CONVERSA ESDRÚXULA DE UM GOVERNO ESDRÚXULO

GENERAL ACUSA EX-SECRETÁRIO DE COMUNICAÇÃO


Que esse “governo” Bolsonaro é um absurdo, todos nós sabemos. Eu, você, a velhinha do sol nascente e todas as torcidas de futebol do país. Mas agora está com a palavra o general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo (Segov). O que surpreende, aliás, é o general ter demorado tanto ter chegado a essa conclusão. Ele classificou como esdrúxulas e inadequadas as trocas de mensagens do ex responsável pela Secom (Secretaria de Comunicação) desse mesmo “governo”, Fabio Wajgarten, com o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos sobre 'mídia aliada'. Santos Cruz foi além, pediu investigação.

Nas conversas, o secretário de Comunicação e o blogueiro defendem a aplicação de verba da Caixa Econômica Federal para publicidade em empresas de comunicação alinhadas ao governo federal e classificadas por Wajngarten como “mídia aliada”. Por alinhadas entenda-se que seriam empresas dispostas não apenas a divulgar as ações do governo, mas, de certa forma, a ajudá-lo em atos antidemocráticos.

O interessante é que a Secom de Wajngarten “chefiou” a Secretaria de Governo (Segov) da Presidência da República – à qual a Secom ficava subordinada! – até junho de 2019. Para Santos Cruz, o diálogo entre Wajngarten e Allan dos Santos “é uma conversa particular sobre assuntos da administração pública”:
— Isso aí aconteceu nas sombras, fora do ambiente de trabalho, até porque o próprio Allan dos Santos nunca foi funcionário público, nunca trabalhou na Secom, nunca trabalhou na Segov, nunca trabalhou no governo. Assuntos de serviço desse tipo nem poderiam ser tratados com uma pessoa que nem é do ambiente de trabalho. Então, é uma conversa absolutamente esdrúxula — afirmou o justamente indignado general.

Nas trocas de mensagens via WhatsApp, o publicitário se apresentou a Allan, amigo dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, quando assumiu a pasta, em abril de 2019. Wajngarten teria dito que é próximo a executivos de emissoras de televisão e que poderia aproximá-los. Citou reuniões com a cúpula do SBT, da Band e com bispos da Record. É bom lembrar que Allan é um dos principais investigados no inquérito dos atos antidemocráticos que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). Portanto, Santos Cruz não teve dúvidas, mesmo dizendo que a polícia é que teria que decidir:
— Se tem alguma irregularidade, tem que dar continuidade à atividade policial de investigação, para definir responsabilidades. Eu não vou entrar em consideração porque isso aí tem que ser avaliado pela polícia. (...) É uma conversa completamente desqualificada, porque ele está tratando nas sombras de um assunto com uma pessoa que não faz parte da administração pública. Tudo isso aí, todo esse conjunto de coisas, tem que ser tratado no âmbito legal.

As mensagens obtidas pela PF mostram que o ex-chefe da Secom se mostrou preocupado com atraso no pagamento de verbas da Caixa à chamada “mídia aliada”. Ele disse que recebeu a informação de que a “Caixa”, em possível referência à Caixa Econômica Federal, estaria “devendo dinheiro” à Band e à “RTV”, uma sigla provável para a “RedeTV!”. Veja trecho:

Fabio Wajngarten: “Caixa devendo dinheiro pra BAND, RTV”.
Allan dos Santos: “E como foi?”
Fabio Wanjgarten: “Os aliados estão furiosos”.
Fabio Wajngarten: “General sentou em cima e não paga nenhuma nota passada”.
Fabio Wajngarten “Provocando iminentes rumores”.
Allan dos Santos: “Desnecessário”.
Fabio Wajngarten: “Totalmente desnecessário”.

É verdade que, no relatório, a PF não identifica o “general” citado por Wajngarten, mas, na época, o único general que teria alguma ingerência sobre os trâmites da Secom era Santos Cruz por chefiar a Segov. Há dois anos, ele acabou sendo demitido do cargo após se tornar alvo de ataques bolsonaristas e ver sua atuação criticada por filhos do presidente.
Santos Cruz se negou a comentar as declarações de Wajngarten e a avaliar o trabalho desempenhado por ele na Secom.
— Ele ficou comigo um mês e pouco, talvez. Não vou avaliar o trabalho dele. Ele que seja avaliado pelo resto do tempo que passou lá, (...) que seja avaliado pelo chefe dele — disse, em óbvia referência a Bolsonaro.

O militar criticou o uso da expressão “mídia aliada” feito por Wajngarten.
— Não tem negócio de classificar “esse é aliado”, “esse não é aliado”. Amigo e inimigo são coisas de doente, fanático — afirmou o general.
Mas dados do sistema de pagamentos da Secom indicam que veículos pró-governo, na classificação de Wajngarten, foram privilegiados. Na comparação entre os biênios de 2017 e 2018 (sob o governo do então presidente Michel Temer) e 2019 e 2020, já no governo de Jair Bolsonaro, a verba da Secom caiu, em média, 26%, saindo de um total de R$ 409 milhões para R$ 300,5 milhões.
O volume de recursos públicos destinado à Globo Comunicação e Participações, que controla a TV Globo, teve o maior corte: 69%. Já a verba para Record retraiu 7%, de R$ 36,5 milhões para R$ 33,8 milhões.
O SBT teve queda de 16%, passando de R$ 34,5 milhões para R$ 28,9 milhões, e a Bandeirantes, de 22%, ainda abaixo da média, de R$ 12 milhões para R$ 9,6 milhões. Na contramão, a Rede TV!, teria aumentado o volume de verbas, em 10%, saindo de R$ 1,5 milhão para R$ 4,1 milhões no período.

A atuação de Wajngarten no comando da Secom está sendo investigada pelo MPF (Ministério Público Federal). Em 2020, uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) apontou falta de critério na distribuição da verba publicitária da Secretaria.

As emissoras negaram privilégios. Record e SBT não quiseram comentar. A reportagem do Globo não conseguiu localizar Allan dos Santos. Wajngarten disse que sua gestão foi “técnica e profissional” e que ele não é investigado pelo inquérito dos atos antidemocráticos.

Lembrando Chacrinha, talvez seja o caso de dizer que “quem se comunica se trumbica”.

Leia também no Globo e no Brasil247.
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