26/11/2020 às 09h28min - Atualizada em 26/11/2020 às 09h28min

​DIREITA DESORIENTADA

ATÉ O ASTRÓLOGO ESTÁ PREOCUPADO

 
Esta eleição municipal está mexendo um pouco mais do que o normal nas tradições partidárias brasileiras. Claro, a maioria dos mesmos poderá continuar no poder. Afinal, 76 municípios são governados pelo mesmo partido há 20 anos! Só no Rio Grande do Sul, que tem 497 municípios, 21 deles têm sido governados pelo mesmo partido desde o ano 2000: 6 do MDB, 8 do PP, 5 do PDT e 2 do PT. No centro do barata voa deste ano está Bolsonaro&Family.
É óbvio que o poder presidencial tem influência direta e indireta nos resultados eleitorais municipais. Verbas liberadas (ou bloqueadas), obras, apoio aqui e ali. Mas o “poder” deste ano anda meio esquisito. Em parte, por causa da pandemia (que interferiu no panorama político mundial), em parte (grande parte!), por causa da incompetência associada à arrogância natural dos Bolsonaros.

Tudo começou com a incompetência completa na forma de enfrentar o problema. Tentando provar que estava tudo normal, o próprio presidente da República lançou a mensagem de que a pandemia tratava-se apenas de uma gripezinha. Pretendia com isso, talvez, salvar a economia insalvável. Chegou a ir às ruas para provar o improvável – e acabou ficando doente, pegou o seu coronavírus. Decidiu lançar uma renda qualquer, que seria mínima, para tentar ajudar a economia e acabou sendo obrigado a aumentar o valor, para tentar apoiar seus candidatos nas eleições municipais. Quando achava que as coisas podiam voltar aos trilhos, seu filhote Eduardo, que é deputado federal por São Paulo e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, decidiu acusar a China de responsável por espalhar o coronavírus pelo mundo. A China, obviamente, respondeu duramente, ameaçando retirar o projeto Huawei do Brasil.

Huawei, para quem ainda não sabe, significa a quinta geração de telecomunicações (5G). À primeira vista, pode parecer que o 5G é apenas uma atualização dos sistemas de 4G já existentes no Brasil. Mas será muito mais do que isso. A velocidade esperada nas conexões é da ordem de 10 a 20 vezes maior do que a tecnologia do 4G. Isso significará mudanças drásticas na forma como a sociedade funciona. Desenvolvimento de carros autônomos — guiados por robôs e sem motoristas —, o futuro da indústria automotiva. A tecnologia 5G permitirá interligar os carros em rede, organizando todo o tráfego de veículos de forma segura e sem a necessidade de motoristas para tomarem decisões.
 
O Brasil tem tudo para ocupar posição de ponta nesse novo mundo, onde hoje a China lidera.
Bolsonaro obviamente recebe todo tipo de pressão vinda dos Estados Unidos, mas não pode voltar atrás um byte sequer. Donald Trump chegou a falar abertamente que está em campanha contra os chineses na questão. Nos últimos anos os Estados Unidos iniciaram uma ofensiva contra a Huawei, que segundo os americanos representa um perigo de segurança nacional aos países que comprarem seus equipamentos.
A acusação é baseada na seguinte lógica: se toda a sociedade estiver interconectada usando equipamento de uma empresa chinesa — o que incluiria sistemas de trânsito, de comunicação ou até mesmo de eletrodomésticos "inteligentes" dentro dos nossos lares — todos nós estaríamos vulneráveis à espionagem pelo governo da China. É possível. Como seria possível se o país em questão fosse outro, como os Estados Unidos, por exemplo.

Os americanos lançam inúmeras acusações e querem que o Brasil adote uma licitação que exclua o uso de equipamentos da Huawei por parte das operadoras — algo que já foi adotado em outros países do mundo, como Reino Unido, Japão e Austrália.
A China nega todas as acusações e diz que o único interesse dos EUA é minar o crescimento tecnológico chinês, que vem fazendo face aos americanos.
 
Ambos os lados da disputa sugerem que o Brasil poderia ser vítima de sanções de um lado ou de benesses do outro, dependendo de como o país decidir se posicionar.
A disputa é tão intensa que, na última segunda-feira (23), Eduardo Bolsonaro postou na sua conta do Twitter que o programa Clean Network, que teve apoio declarado do Brasil, protege seus participantes de invasões e violações. Segundo ele, a iniciativa afasta a tecnologia da China e evita a sua espionagem. Isso obviamente levou a uma resposta dura por parte da embaixada da China. E certamente levou o astrólogo de Virgínia, Olavo de Carvalho, grande responsável pela eleição de Bolsonaro, a declarar a seu pupilo: “Bolsonaro: Se você não é capaz nem de defender a liberdade dos seus mais fiéis amigos, renuncie e vá para casa antes de perder o prestígio que em outras épocas soube merecer”.
 
Pobre Brasil. Com tanto a ganhar, mas com tudo a perder com os mouses dos Bolsonaros...

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