14/08/2021 às 08h11min - Atualizada em 14/08/2021 às 08h11min

IRMÃO DO AJUDANTE DE ORDENS AJUDOU BOLSONARO

POSTOU INQUÉRITO SIGILOSO


Sabe o inquérito sigiloso da Polícia Federal que Bolsonaro postou em uma entrevista ao programa Pingos nos Is da TV Jovem Pan? Ele foi originalmente postado na rede social alternativa Mastodon pelo desenvolvedor Daniel Cid, que é irmão do ajudante de ordens de Bolsonaro, o coronel Mauro Jorge Cid.

O vazamento foi tornado público na entrevista de Bolsonaro e levou Alexandre de Moraes a determinar a abertura de um inquérito contra o presidente da República.
Os metadados do documento foram acessados pela equipe sob orientação do professor Miguel Freitas, pesquisador do Centro de Pesquisa em Tecnologia de Inspeção da PUC do Rio de Janeiro. Eles mostram que o inquérito tinha sido arquivado no servidor brasileiros.social, mantido por Daniel Cid dentro da rede Mastodon, a partir de um provedor fora do Brasil, às 19h30 do dia 4, enquanto Bolsonaro dava entrevista.

Bolsonaro replicou o link duas horas depois, em seus perfis no Telegram, no Instagram, no Twitter e no Facebook. "Conforme prometido em entrevista ao ‘Pingos nos Is’, segue (sic) os documentos que comprovam, segundo o próprio TSE, que o sistema eleitoral brasileiro foi invadido e, portanto, é violável", escreveu o presidente.

Segundo o TSE, as afirmações de Bolsonaro distorcem o conteúdo do inquérito aberto em 2018 sobre um ataque hacker ao sistema do tribunal, que nem sequer foi concluído.
A investigação foi pedida à PF pelo próprio tribunal, dez dias após o segundo turno das eleições, para apurar denúncias de um ataque aos sistemas da corte, mas não encontrou indícios de que o ataque tenha afetado o resultado das eleições. Um hacker teria entrado no sistema, mas sem conseguir acessar o módulo sigiloso das urnas.

Depois da live que Bolsonaro realizou no dia 2 de agosto, lançando suspeitas sobre a segurança do processo eleitoral, e da entrevista do dia 4, na Jovem Pan, o tribunal enviou ao ministro Alexandre de Moraes uma notícia-crime contra Bolsonaro, o deputado Filipe Barros e o delegado da Polícia Federal Victor Neves Feitosa, responsável pelo inquérito.
No despacho que determina a abertura de investigação, Alexandre de Moraes afirma que o vazamento do inquérito sigiloso "teria o objetivo de expandir a narrativa fraudulenta que se estabelece contra o processo eleitoral brasileiro, com objetivo de tumultuá-lo, dificultá-lo, frustrá-lo ou impedi-lo, atribuindo-lhe, sem quaisquer provas ou indícios, caráter duvidoso acerca de sua lisura".

A rede Mastodon estaria sendo usada por Bolsonaro para postar conteúdos que foram depois banidos em outras redes, sempre por meio do brasileiros.social. Além do link para o inquérito sigiloso, Bolsonaro já fez o mesmo para divulgar uma cópia de uma edição do Diário Oficial e um artigo sobre os benefícios do "tratamento precoce" contra a Covid-19.

A Mastodon é uma rede social tipo "aberta”, que não controla os conteúdos postados. Ela prevê que os controles sejam feitos pelos próprios usuários, que podem isolar quem esteja postando conteúdos ofensivos ou considerados mentirosos. A rede social de extrema direita Gab, por exemplo, tentou se inserir na Mastodon depois de ser expulsa de outras plataformas, mas não foi aceita.

Para o professor Miguel Freitas, o servidor usado para postar provavelmente foi escolhido para dificultar a retirada do conteúdo do ar. "Utilizar um servidor web como forma de compartilhar arquivos grandes não é uma prática atípica. O que não é corriqueiro é utilizar um servidor próprio, hospedado no exterior e com dados de registro de domínio (DNS) ocultos. Isso indica uma tentativa de esconder a origem do material e torna tortuosa a identificação dos responsáveis."

Além de irmão do coronel que é ajudante de ordens do presidente da República, Daniel Cid é filho do general da reserva Mauro Cesar Lourena Cid, colega de turma de Bolsonaro da Academia de Agulhas Negras (AMAN) e ex-chefe do departamento de Comunicação e Cultura do Exército.
Nas redes sociais, Daniel Cid propagandeava a relação com Bolsonaro. "Muito orgulhoso do meu irmão e de seu trabalho ao lado do presidente do Brasil", ele postou no dia da posse presidencial, em janeiro de 2019. "Ele é o militar sempre ao lado do presidente em todas as fotos".

O Globo enviou mensagens pedindo entrevistas a Daniel Cid por meio das redes sociais e procurou o coronel Mauro Cid por telefone e via Secretaria de Comunicação da Presidência da República, perguntando sobre a postagem do inquérito. Esse movimento foi o que provavelmente teria feito com que ele apagasse os documentos que estavam arquivados no brasileiros.social e que haviam sido postados por Bolsonaro em suas redes. Também retirou sua foto e a identificação no perfil que mantém no Mastodon. No lugar, estava um avatar de Homer Simpson.

Mais tarde, Daniel Cid entrou em contato com a equipe da coluna do Globo e informou que, assim que soube que a postagem era indevida, retirou o documento do ar.
"Eu já tirei do ar do servidor. Na hora que soube que não poderia estar lá", afirmou. Poderia ter aproveitado para sugerir a Bolsonaro também sair do ar – o país poderia respirar aliviado.

Leia também no Globo e no Brasil247.
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