07/02/2021 às 12h29min - Atualizada em 07/02/2021 às 12h29min

PROGRESSISMO OU NEOLIBERALISMO?

O CORREÍSMO É FAVORITO NO EQUADOR

 
O candidato do correísmo (referência a Rafael Correa, que foi eleito presidente e governou de 15 de janeiro de 2007 até maio de 2017), Andrés Arauz, aparentemente chega como favorito às eleições presidenciais deste domingo, dia 7 (a hora no Equador é duas horas mais cedo do que Brasília). O banqueiro Guillermo Lasso e o líder indígena Yaku Pérez estariam disputando o segundo lugar.
 
O Equador é um país andino, costeiro e amazônico, localizado entre a Colômbia e o Peru, e onde se joga uma das peças do tabuleiro continental, em que o que é tratado como progressismo pode vencer ou o que é acusado de neoliberalismo pode se aprofundar em um dos momentos mais complexos, difíceis e incertos.
 
O país parece estar exausto, depois dos quatro anos de Lenin Moreno, que teria feito traição política. Ele foi vice-presidente de Rafael Correa de 2007 a 2013, mas teria perseguido os que o trouxeram ao governo, mudou radicalmente sua política econômica interna e externa, teria assumido sob um projeto progressista e latino-americano... e se voltado para um neoliberalismo com alinhamento irrestrito com Washington.
Moreno aparentemente representa o passado. Sua perspectiva política teria sido sepultada durante o levante indígena e popular de outubro de 2019 e, posteriormente, pela falta de resposta à pandemia. Moreno nunca teria sido uma aposta estratégica, mas sim uma peça de transição que já teria cumprido o seu papel, com alto impacto econômico, institucional e geopolítico.
Seu candidato, Guillermo Lasso, cujo programa econômico foi implementado por Moreno, é um banqueiro neoliberal que a oposição acusa de ter contas offshore e que já foi derrotado nas urnas em 2013 e 2017. No momento, aparece em segundo lugar na maioria das pesquisas, na disputa com Yaku Pérez, candidato do partido Pachakutik (Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik-Novo País, MUPP-NP, formado em 1995, numa década marcada pela emergência do movimento indígena e por sua configuração como provavelmente o principal ator político do Equador) - e sua aspiração na votação de abril seria tentar montar uma frente anti-correista.
 
A eleição estaria sob forte suspeita. Há muitas acusações de irregularidades contra o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), por impedir o registro de Correa para a vice-presidência na chapa de Andrés Arauz, suspender o registro da lista eleitoral sob a qual a “revolução cidadã” havia sido apresentada na última eleição, ou deixar em suspenso a eleição de candidatos ao Parlamento Andino para o domingo.
A CNE foi questionada por diferentes forças políticas. Apresentaria falta de transparência, parcialidade, como parte de um processo de degradação institucional ocorrido nos anos do governo Moreno. Nesse quadro, surgem hipóteses sobre possíveis jogadas de última hora e manobras para modificar a vontade popular, construir cenários de incerteza ou crise que impactem o resultado final. Um contexto que lembra o que aconteceu na Bolívia em outubro de 2020, que conseguiu ser anulado pela extensão da vitória de Luis Arce com 55,1% dos votos e mais de 25 pontos de diferença sobre o segundo. Por isso, também neste caso, parte do que é decisivo no domingo será a extensão ou não do resultado.
 
Parte das suspeitas também se dá pela recente viagem que Moreno fez a Washington, onde, junto com a ex-Ministra de Governo, María Paula Romo - lembrada por seu papel na repressão de outubro de 2019 - se reuniu com autoridades decisivas da América Latina política, como Juan González, diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional, Luis Almagro, secretário da Organização dos Estados Americanos, Marco Rubio, nomeado em 2020 chefe do Comitê de Inteligência do Senado.
Uma das traduções desse encontro foi a duplicação dos ataques da mídia contra a campanha de Arauz. A aposta de Washington para o Equador é manter a continuidade neoliberal-subordinada construída sob Moreno e, consequentemente, seu atual candidato é Lasso ou quem puder enfrentar o correísmo, o que representaria o retorno de uma política latino-americana, aberta ao cenário geopolítico, principalmente nos assuntos de investimento, em um contexto de forte disputa.
As urnas foram abertas às sete da manhã (9:00h em Brasília) e serão encerradas às cinco da tarde do domingo, quando poderão surgir especulações ou operações políticas. Por enquanto, o quadro tem sido de calmaria nas ruas, com pouca presença da campanha nas ruas de Quito, cidade que enfrenta a recessão e a segunda onda de pandemia com a memória traumática da primeira, pelo que aconteceu em Guayaquil, quando hospitais desabaram e foram foram encontrados mortos em casas e nas ruas.
 
O resultado deste domingo impactará o país e suas perspectivas para os próximos anos. Muito está em jogo para a América Latina, o que se verifica no apoio dado por Alberto Fernández e Pepe Mujica à candidatura de Arauz, por exemplo, ou por aqueles que vêm a Quito nestes dias que fazem parte de uma disputa continental.
 
Leia mais em Pagina12 e El País.

 
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